Quando a cólica não é normal: sinais de endometriose
Quando a cólica não é normal? Entenda os sinais que pedem investigação, o que é a endometriose e por que o diagnóstico leva, em média, sete anos no Brasil.
"Toda mulher sente cólica." É uma frase meio verdadeira, e é por isso que ela funciona tão bem: cólica menstrual é comum mesmo. O que não é comum é a dor que interrompe a sua vida todo mês, a que faz você faltar no trabalho e contar os dias com medo do próximo ciclo.
Se você já ouviu que era normal e voltou pra casa com a mesma dor, este texto é sobre onde fica essa linha. Sobre quando a cólica não é normal e merece investigação.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento da endometriose dependem de avaliação individual.
A dor que quase ninguém leva a sério
Segundo a OMS, a dor pélvica crônica de quem tem endometriose não é normal. E o público em geral, os familiares e boa parte dos profissionais de saúde não sabem disso. A OMS vai além: normalizar e estigmatizar essa dor afeta negativamente a saúde mental e o bem-estar dessas mulheres.
Ou seja, a sensação de não ser levada a sério não é impressão sua. Ela está descrita como parte do problema por um organismo internacional de saúde.
Os números brasileiros ajudam a entender o tamanho do silêncio. Em um estudo com 207 universitárias no Rio de Janeiro, publicado pela revista Femina, da FEBRASGO, 84,1% relataram cólica menstrual. Entre elas, 41,4% classificaram a dor como intensa e 60,9% precisaram interromper alguma atividade física ou social por causa dela. Mesmo assim, os autores concluem que a maioria se automedica e poucas procuram atendimento médico para resolver o problema.
A dor é altíssima. A procura por ajuda, não.
Quando a cólica não é normal: primária ou secundária
Na ginecologia, a cólica menstrual tem nome, dismenorreia, e se divide em dois tipos. É essa divisão que responde à pergunta de quando a cólica não é normal.
A dismenorreia primária acontece sem nenhuma doença pélvica por trás. A dismenorreia secundária tem uma causa orgânica. E, entre as causas ginecológicas de dor pélvica, a principal é a endometriose.
A revista Femina, da FEBRASGO, separa as duas assim:
| Dismenorreia primária | Dismenorreia secundária | |
|---|---|---|
| Quando começa | Poucos meses depois da primeira menstruação | A qualquer momento depois da primeira menstruação, especialmente acima dos 25 anos |
| Como é a dor | Chega junto com o fluxo e dura de 8 a 72 horas | Variável: pode mudar de momento e de intensidade |
| Outros sintomas | Náusea, vômito, dor de cabeça | Dor na relação sexual, sangramento intenso, sangramento após a relação |
| Exames | Físico e complementares normais | Mostram alteração na pelve |
| Histórico | Sem particularidade relevante | Endometriose na família, sangramento uterino anormal, cirurgia prévia |
| Resposta ao tratamento | Boa com anti-inflamatório e anticoncepcional | Pouca ou nenhuma |
Nenhuma linha dessa tabela fecha um diagnóstico sozinha, e nem todas elas juntas fechariam. Elas servem para indicar que vale investigar.
O diagnóstico da dismenorreia é fundamentalmente clínico. Distinguir um tipo do outro depende de uma conversa detalhada sobre a sua história, de exame físico e, quando indicado, de exames complementares.
O que é a endometriose
A endometriose é uma doença em que um tecido semelhante ao endométrio, o revestimento interno do útero, cresce fora do útero. Esse tecido provoca inflamação e formação de tecido cicatricial. A definição é da OMS, que estima que a condição afete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo, mais de 190 milhões de pessoas.
No Brasil, a proporção é parecida. A FEBRASGO aponta que a doença atinge uma em cada dez mulheres em idade fértil. O protocolo oficial da federação trabalha com uma prevalência entre 5% e 10%, e ressalva que os dados epidemiológicos variam bastante entre os estudos.
Por que o diagnóstico demora tantos anos
Segundo o Ministério da Saúde, a média entre o início dos sintomas e a confirmação da doença é de sete anos. O protocolo da FEBRASGO chega ao mesmo número, e a OMS trabalha com uma faixa internacional de 4 a 12 anos. Sete anos convivendo com a dor é tempo de sobra para organizar a vida inteira em torno dela.
As razões se somam. A OMS observa que os sintomas da endometriose são variáveis e amplos, o que dificulta o reconhecimento pelos profissionais de saúde. O Dr. Ricardo Quintairos preside a Comissão Nacional Especializada em Endometriose da FEBRASGO. Ele resume o efeito prático disso: o desconhecimento sobre a doença faz com que as pacientes passem de médico em médico.
Some a isso a dor tratada como parte da rotina feminina, e sete anos deixam de ser um mistério.
Os sinais que quase ninguém conecta
A cólica é o sintoma mais conhecido, mas está longe de ser o único. O protocolo de endometriose da FEBRASGO lista como principais sintomas a dismenorreia, a dor pélvica crônica, a dor profunda durante a relação sexual e a infertilidade. E mais dois grupos, que costumam passar despercebidos:
- Alterações intestinais cíclicas: distensão abdominal, constipação, dor ao evacuar, dor anal ou sangramento nas fezes no período menstrual.
- Alterações urinárias cíclicas: dor ao urinar, sangue na urina, vontade frequente de urinar ou urgência para urinar no período menstrual.
A palavra importante aqui é cíclicas. Um intestino que trava sempre na menstruação, raramente é levado para a consulta de ginecologia. Costuma virar assunto de gastroenterologista ou de nenhum médico. É justamente essa ligação com o ciclo que pode mudar a direção da investigação.
Você não precisa de uma cirurgia para descobrir
Existe um medo antigo que segura muita mulher na porta do consultório: o de que só a cirurgia revela a endometriose. Faz tempo que isso deixou de ser verdade.
O protocolo oficial da FEBRASGO é direto. A videolaparoscopia tinha, no passado, papel no diagnóstico da endometriose. Hoje, com o avanço dos métodos de imagem, ela é indicada para diagnóstico apenas em pacientes com exames normais e falha no tratamento clínico.
Na prática, a investigação começa pela suspeita clínica e pelo exame físico, e se apoia em exames de imagem. O Ministério da Saúde cita a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética de pelve com contraste. Os dois precisam ser feitos por profissionais com experiência específica nesse tipo de avaliação, porque o que se procura é sutil.
A própria FEBRASGO faz uma ressalva importante: os exames de imagem são muito eficientes para detectar lesões profundas e endometriomas ovarianos, mas as lesões superficiais só aparecem esporadicamente. Por isso a história que você conta na consulta continua pesando tanto quanto a imagem.
O que esperar do cuidado
A endometriose é uma doença crônica. O protocolo da FEBRASGO recomenda acompanhamento ao longo de toda a vida reprodutiva da mulher. E é honesto sobre o objetivo do tratamento clínico: aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida. Não se espera a redução das lesões nem a cura da doença, mas sim o controle do quadro. A OMS registra o mesmo: não existe cura conhecida até hoje. Os sintomas, porém, podem ser tratados com medicamentos e, em algumas mulheres, com cirurgia.
Isso não é uma má notícia disfarçada. Quer dizer que o cuidado existe e é contínuo, em vez de uma solução única aplicada igual para todas. O que funciona para uma mulher pode não ser o ideal para outra. Depende dos sintomas que mais incomodam, da fase da vida, do desejo de engravidar e da rotina de cada uma.
O tema também avançou no país. Em 2025, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS dois novos tratamentos para endometriose: o DIU liberador de levonorgestrel e o desogestrel. A mudança veio pelas Portarias SECTICS/MS nº 41 e nº 43.
Quando marcar uma consulta
Se a sua cólica te faz faltar, se ela mudou de padrão ou se não melhora com o que você já tentou, vale marcar uma avaliação. Vale também se você já saiu de consultas anteriores sem se sentir realmente ouvida.
Você não precisa chegar com um diagnóstico pronto, nem provar que a dor existe. Basta contar a sua história inteira, com tempo, para alguém disposto a ouvir até o fim. Sete anos é tempo demais para descobrir que a dor tinha nome.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento da endometriose dependem de avaliação individual.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde — Endometriosis (fact sheet) (atualizado em outubro de 2025)
- Ministério da Saúde — Endometriose
- FEBRASGO — Protocolo de Ginecologia nº 32: Endometriose (Femina, 2020;48(4):233-7)
- FEBRASGO — Endometriose: doença afeta uma em cada dez mulheres em idade fértil no Brasil (fevereiro de 2025)
- Dall'Acqua R, Bendlin T — Dismenorreia (Femina, 2015;43(6):273-8)
- Berardo PT, Braga EB, Mayer TA — A dismenorreia e suas consequências em estudantes universitárias no Rio de Janeiro (Femina, 2020;48(2):109-13)
- Ministério da Saúde / UNA-SUS — SUS vai ofertar novos tratamentos para endometriose (julho de 2025)
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